Meia-noite.
Por toda a
história vil e resoluta daquilo que chamamos de humanidade, um fascínio sempre
prevaleceu por este momento específico, entre o crepúsculo e a aurora. É quando
a noite é mais escura, e as trevas tornam-se densamente palpáveis. É quando as
doze badaladas do relógio de pêndulo martelam a mente dos inquietos e
agoniados, como os passos sombrios da morte ou do esquecimento rondando uma
alma atormentada. É a hora das bruxas, dos gatos pretos, dos descarnados
espíritos saírem de suas tumbas para perturbar o sono dos vivos. É a hora do medo.
Quando
criança lembro-me, tão bem quanto
qualquer lembrança infantil pode ser, das velhas histórias macabras e sinistras
contadas por meus avós, em meio ao cheiro do café e do ruído incessante das
páginas sendo viradas. Éramos somente eu, meu avô e minha avó, sozinhos em uma
velha casa em um canto qualquer de uma cidade comum. Os três prostrados diante
de uma janela, com o som dos pingos de chuva batendo no vidro e o ribombar dos
trovões regendo uma tétrica sinfonia de fundo. Não havia luz elétrica, e as
luzes das velas do único castiçal naquela velha biblioteca de uma velha casa
projetavam nas paredes forradas por prateleiras sombras aterradoras, que nos
cercavam como fantasmas. E lá, com todo esse arabesco, meu avô tirava um velho
livro da estante e eu, minha avó e as sombras fantasmas deixávamos o terror de
Poe, Lovecraft, Byron, Hugo e Azevedo exercer seu poder sobre nós.
Hoje,
meus avós estão mortos. Suas carnes há muitos serviram de alimento para os vermes
sepulcrais do cemitério, e em meio a seus crânios e ossos crescem as raízes das
plantas fúnebres, verdejando sob a sombra de suas pedras tumulares,
misteriosamente criando vida a partir da morte. E eu, em breve, me juntarei a
eles. Mas antes que eu desça ao mundo dos não-vivos e torne-me o espectro
protagonista de outras histórias que não as minhas, eu tenho alguns contos para
dividir. Por toda a minha vida reuni em minha memórias os mais temíveis e
impressionantes casos de medo e suspense. Dediquei minha existência a ouvir,
ler, pesquisar e perscrutar tudo que pretendo compartilhar neste espaço. Os que
assim desejarem, estão convidados a juntarem-se a mim por uma viagem sem volta,
pois quem entra nos domínios escuros, não volta. Seremos vocês, as sombras que
os cercam, os espíritos que repousam ao seu lado, e eu. Cavaremos nossa própria
cova e marcharemos, condenados, aos portões do Inferno.
Quando as doze badaladas do
relógio soarem, eu serei o Arauto do Medo. E vocês, a minha plateia...