quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Nota do Escriba N° 1

Meia-noite.

Por toda a história vil e resoluta daquilo que chamamos de humanidade, um fascínio sempre prevaleceu por este momento específico, entre o crepúsculo e a aurora. É quando a noite é mais escura, e as trevas tornam-se densamente palpáveis. É quando as doze badaladas do relógio de pêndulo martelam a mente dos inquietos e agoniados, como os passos sombrios da morte ou do esquecimento rondando uma alma atormentada. É a hora das bruxas, dos gatos pretos, dos descarnados espíritos saírem de suas tumbas para perturbar o sono dos vivos. É a hora do medo.

                Quando criança lembro-me,  tão bem quanto qualquer lembrança infantil pode ser, das velhas histórias macabras e sinistras contadas por meus avós, em meio ao cheiro do café e do ruído incessante das páginas sendo viradas. Éramos somente eu, meu avô e minha avó, sozinhos em uma velha casa em um canto qualquer de uma cidade comum. Os três prostrados diante de uma janela, com o som dos pingos de chuva batendo no vidro e o ribombar dos trovões regendo uma tétrica sinfonia de fundo. Não havia luz elétrica, e as luzes das velas do único castiçal naquela velha biblioteca de uma velha casa projetavam nas paredes forradas por prateleiras sombras aterradoras, que nos cercavam como fantasmas. E lá, com todo esse arabesco, meu avô tirava um velho livro da estante e eu, minha avó e as sombras fantasmas deixávamos o terror de Poe, Lovecraft, Byron, Hugo e Azevedo exercer seu poder sobre nós.

                Hoje, meus avós estão mortos. Suas carnes há muitos serviram de alimento para os vermes sepulcrais do cemitério, e em meio a seus crânios e ossos crescem as raízes das plantas fúnebres, verdejando sob a sombra de suas pedras tumulares, misteriosamente criando vida a partir da morte. E eu, em breve, me juntarei a eles. Mas antes que eu desça ao mundo dos não-vivos e torne-me o espectro protagonista de outras histórias que não as minhas, eu tenho alguns contos para dividir. Por toda a minha vida reuni em minha memórias os mais temíveis e impressionantes casos de medo e suspense. Dediquei minha existência a ouvir, ler, pesquisar e perscrutar tudo que pretendo compartilhar neste espaço. Os que assim desejarem, estão convidados a juntarem-se a mim por uma viagem sem volta, pois quem entra nos domínios escuros, não volta. Seremos vocês, as sombras que os cercam, os espíritos que repousam ao seu lado, e eu. Cavaremos nossa própria cova e marcharemos, condenados, aos portões do Inferno.


Quando as doze badaladas do relógio soarem, eu serei o Arauto do Medo. E vocês, a minha plateia...